Desempate por grandes penalidades no Campeonato do Mundo de Futebol

Desempate por grandes penalidades no Campeonato do Mundo de Futebol
Em torneio com fases eliminatórias como o Campeonato do Mundo de Futebol, paira sempre a possibilidade do infame desempate pela marcação de grandes penalidades. Este artigo examina o desempate por grandes penalidades no Campeonato do Mundo de Futebol, as teorias de jogo envolvidas e qual a importância de uma equipa ser a primeira a marcar as grandes penalidades.

Teoria de jogo e grandes penalidades

O desempate por grandes penalidades teve sempre lugar em pelo menos um jogo na final do Campeonato do Mundo de Futebol desde que a França perdeu contra a antiga RFA na meia-final do Espanha 82. Para além de proporcionar um momento emocionante, embora penoso, a grande penalidade em geral foi sempre um aspecto rico em análises de vídeo e como experiência real em termos de teoria de jogo.

Todos os marcadores de grandes penalidades preferem sempre chutar para um dos lados. O movimento natural de um jogador destro tende a enviar a bola para o lado direito do guarda-redes e é normalmente mais forte. Por outro lado, a tentativa de colocar a bola no canto oposto depende de um remate mais em jeito e mais dissimulado.

A teoria de jogo combina uma lógica de tomada de decisões racionais com uma tendência psicológica. Quando um marcador chuta mais para o seu lado natural, o guarda-redes também se atira mais para esse lado para aumentar as suas hipóteses de defender, mas o marcador também sabe disso e tenta responder a esse movimento. O factor sorte faz muitas vezes parte da defesa de uma grande penalidade porque, se o guarda-redes esperar que a bola parta, o seu tempo de reacção não é suficiente para lhe permitir defender uma grande penalidade bem marcada.

Por isso, o marcador deve alternar as suas decisões de marcação, evitando tornar-se previsível se escolher sempre o seu lado mais natural, mesmo que esta opção dê provavelmente origem a um remate mais forte e preciso. Quando o marcador e o guarda-redes escolhem o mesmo ângulo da baliza, a taxa de sucesso da grande penalidade cai abaixo dos 70%. Por isso, é fundamental surpreender o guarda-redes.

Este aspecto da marcação de uma grande penalidade adquiriu uma importância acrescida no futebol moderno. Muitos marcadores habituais de grandes penalidades alternam de tendências de remate consoante as circunstâncias, mas os padrões de alternância transformam-se por vezes em alterações regulares e tornam-se previsíveis.

Os jogadores menos habituados à marcação de grandes penalidades podem preferir a potencialidade natural do seu lado mais forte, mas os marcadores mais experientes, como Panenka na Taça das Nações Europeias de 1976 e, mais recentemente, Pirlo (Euro 2012 vs. Inglaterra), introduziram uma terceira opção que consiste em enviar a bola em arco para o centro da baliza, uma área que o guarda-redes deixa vazia ao escolher um dos lados.

É melhor ser o primeiro ou o segundo a marcar?

Enquanto a teoria de jogo acrescenta uma perspectiva adicional à marcação de grandes penalidades, um importante dado estatístico mais aleatório refere-se à aparente vantagem que assiste à equipa que marca primeiro.

Divulgado na Soccernomics, um estudo realizado por Ignacio Palacios-Huerta num universo de 129 grandes penalidades marcadas antes de 2003 mostrou um sucesso pouco superior a 60% para a equipa que marca a primeira grande penalidade. Este intervalo temporal foi escolhido porque, após esta data, a equipa que ganha a moeda ao ar passou a escolher se pretende marcar em primeiro ou segundo lugar, enquanto que até aí essa equipa era obrigada a marcar primeiro. Assim, antes a ordem era decidida por moeda ao ar, sendo totalmente aleatória.

Por isso, o valor de 60% passou a ser associado à marcação de grandes penalidades tal como é feita actualmente. Uma grande penalidade individual marcada por um marcador experiente resulta em golo quase 80% das vezes. Por isso, a maior parte das vezes, a equipa que marca em segundo começa em desvantagem e não é difícil concluir que a pressão acumulada afecta a confiança e o desempenho da equipa que marca em segundo lugar.

A taxa de sucesso de 60% ao longo de 129 grandes penalidades é possível se ambas as equipas tiverem 50% de hipóteses de ganhar a grande penalidade, mas é improvável e tais dados são considerados estatisticamente significativos. Assim, a evidência da vantagem considerável da equipa que marca primeiro parece inegável e poderá não ser reflectida nas probabilidades disponíveis para cada equipa depois do lançamento da moeda ao ar e a escolha ter sido feita.

No entanto, há outros factores a considerar. Em primeiro lugar, a equipa que marca primeiro pode ter uma vantagem mas tal vantagem pode não chegar aos tão citados 60%. Se as equipas tiverem, em geral, hipóteses de 54% (portanto, ligeiramente favoráveis) de ganhar se marcarem primeiro, é provável que a relação seja de 60:40 ao longo de 129 jogos, comparativamente a uma disputa inteiramente equitativa. Assim, a taxa de 60% pode ter sido obtida em parte por sorte em 129 casos de uma disputa apenas ligeiramente desequilibrada.

Para além disso, vários estudos alternativos de Kocher, Lenz e Sutter, incidindo sobre 262 a 470 grandes penalidades no mesmo intervalo temporal não chegaram ao valor de 60%. Registaram, pelo contrário, taxas de sucesso para os primeiros marcadores de cerca de 53%, o que está praticamente em linha com as possibilidades verificadas numa disputa equitativa.

Estudos mais recentes sobre resultados em competições mais recentes, tais como a análise da Prozone dos Campeonatos Europeu e Mundial de Futebol desde 1998 até hoje, parecem voltar a confirmar as primeiras conclusões, ao referirem taxas de sucesso de 75%.

No entanto, parece não haver muitas razões para escolher 1998 como o ponto de partida do estudo e o tamanho da amostra é reduzido. Se os tamanhos das amostras aumentarem e incluírem as grandes penalidades nestas disputas de fases finais desde que a prática foi introduzida, a taxa de sucesso cai para 53%. Estes níveis estão mais em linha com a variação aleatória numa disputa predominantemente equitativa do que a eventual preponderância dos efeitos da pressão psicológica.

A marcação de grandes penalidades tem sido o método preferido de desfazer desempates prolongados em muitas competições em todo o mundo. Este método tem sido usado em torneios internacionais a nível mundial e europeu, nas Taças asiática, africana e americana, bem como como em várias competições de clubes internacionais e nacionais. Os resultados das grandes penalidades são relativamente fáceis de encontrar, mas uma pesquisa sobre a ordem de marcação exige muitas vezes a consulta de relatórios de jogo ou a visualização de vídeos no Youtube.

No entanto, uma tarde de pesquisas no Google poderá facilmente produzir mais de cem grandes penalidades de várias competições nacionais da Inglaterra, como os play-offs das diferentes divisões e a taça, em todas as suas formas, e é de esperar encontrar centenas de casos em que a equipa que marca em segundo surge com taxas de vitória superiores.

É muito provável que o valor de 60% se verifique se qualquer jogo das fases finais do Campeonato do Mundo de Futebol for resolvido por grandes penalidades. Mas não seria sensato esperar uma vantagem igual para a equipa que marque em primeiro lugar. São muitas as evidências contraditórias, quer de anos recentes quer do intervalo temporal do primeiro estudo.

Se, como sugerem as estatísticas, as grandes penalidades são de facto aleatórias, a maldição de Inglaterra nas grandes penalidades não é senão uma extensão da falácia do apostador. Por exemplo, se tiverem 50/50 hipóteses de ganhar, apresentar três derrotas não é mais surpreendente do que sair cara na moeda ao ar três vezes seguidas. Assim, se Inglaterra chegar ao desempate por grandes penalidades no Campeonato do Mundo de Futebol, os apostadores devem ter estas considerações em conta antes de fazerem as suas previsões para as grandes penalidades.

A análise detalhada dos dados pode ser útil para considerar propostas por vezes contraditórias e as promessas mais disseminadas muitas vezes não têm em conta todas as observações do estudos aprofundados em que se baseiam. Apesar dos estudos que sugerem o contrário, caso tenha lugar um desempate por grandes penalidades no Brasil 2014, o mesmo deve ser provavelmente tratado como um golpe de sorte praticamente 50/50, tal como foi inicialmente concebido.

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